TeCA: Este Pinocchio não é para meninos
Com encenação de Bruno Bravo, o espetáculo renuncia à versão infantil da história para se fazer emergir nas suas dimensões mais negras.


2017.03.09

Os contos de fadas para crianças, nas suas versões originais, têm sempre uma dimensão mais negra e humana do que aquelas adaptações que nos habituamos a ver no grande ecrã (e, muitas vezes, da responsabilidade da Disney). É precisamente a exploração dos tormentos da infância que seduziu Bruno Bravo a encenar Pinocchio, a partir da obra As Aventuras de Pinóquio, escrita por Carlo Collodi e publicada em 1883. Estreado em fevereiro do ano passado no Maria Matos Teatro Municipal, Pinocchio – eleito como um dos melhores espetáculos de 2016 pelo semanário Expresso – vai estar agora em cena no Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, entre 15 e 19 de março.

Pinocchio – que, na peça, é interpretado por Carolina Salles – conta-nos a história de um simples bocado de madeira que é oferecido a Geppetto (António Mortágua) e transformado numa marioneta maravilhosa, mas muito preguiçosa, desobediente e teimosa. Ao longo do conto, o boneco – que só quer ser um menino igual aos outros e integrar-se na sociedade – envolve-se em aventuras mirabolantes e um tanto quanto cómico-dramáticas, recorrendo muitas vezes à imaginação para compreender a realidade, como se de um recurso à sobrevivência se tratasse. A violência do crescimento e da infância é mesmo esta: perceber onde começa o mundo que imaginamos e o mundo em que vivemos e ajustar as expectativas dos outros em relação a nós mesmos.

A obra de Collodi, que já se tornou um “património” das várias gerações, faz também emergir reflexões importantes sobre a condição humana e sobre as relações, sejam elas entre pais e filhos, ou entre os Homens que se tentam organizar num mundo caótico. É, ainda, uma história sobre a importância de errar e sofrer para se alcançar a redenção – traduzida na eliminação do egoísmo e conquista da honestidade – que, no final, nos permite descobrir o que podemos ser.

Bruno Bravo, que também assumiu a tradução e adaptação de Pinocchio, transforma assim um texto não-teatral num espetáculo que caminha para o surrealismo com um coro de figuras e animais em ponto grande que representam as vozes do mundo. Diz o encenador que “as palavras querem, sempre, dizer mais do que o que dizem. Jogam-se as grandes verdades e as grandes mentiras e, como no teatro, misturam-se”. Este Pinocchio para maiores de 12 anos é uma coprodução Primeiros Sintomas e Teatro Maria Matos e pode ser visto de quarta a sábado, às 21h00, e no domingo, às 16h00. Os bilhetes podem ser adquiridos por 10 euros.