Portugal investiga efeito do agrião de água no tratamento do cancro
País lidera estudo que avaliará papel da ingestão diária do agrião de água na proteção das células saudáveis durante os tratamentos de radioterapia.


2014.03.27

Poderá o agrião de água ser uma nova terapia adjuvante no tratamento do cancro? Esta possibilidade levou a Vitacress, multinacional portuguesa de saladas, a lançar um desafio à Unidade de Nutrição e Metabolismo (Maria Ermelinda Camilo Lab) do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a Laboratório de Nutrição da mesma faculdade, a Serviço de Radioterapia do Hospital Universitário de Santa Maria-CHLN e àUniversidade de Reading, em Inglaterra. Com o objetivo de explorar a resposta à questão, será realizado um ensaio clínico randomizado controlado no âmbito da nutrição em oncologia e que visa explorar os efeitos de dietas fortificadas com agrião de água, alimento naturalmente rico em nutracêuticos e substâncias moduladoras da atividade celular e metabólica no organismo.

O estudo avaliará, em 200 mulheres adultas com cancro da mama submetidas a radioterapia com intenção curativa, o efeito de uma intervenção nutricional fortificada com agrião de água (dose diária de 100 gramas), sobre a doença e efeitos dos tratamentos, por comparação com um grupo de controlo de doentes que irá manter a sua dieta ad libitum. As pacientes receberão instruções detalhadas, incluindo diferentes formas sobre como preparar e ingerir o agrião sem que este perca as suas propriedades nutricionais. Serão ainda instruídas a registar diariamente o modo como o preparam e serão monitorizadas semanalmente durante o tratamento para avaliação do cumprimento das recomendações. O agrião fresco será entregue pela Vitacress no hospital três vezes por semana. Será dado em mão às doentes pela investigadora do ensaio, que controla assim a quantidade distribuída. 

Agrião de água protege as células saudáveis dos danos da radioterapia?

Quatro tempos de avaliação serão utilizados para avaliar os potenciais benefícios do agrião de água na dieta das doentes: no final da radioterapia, três meses após o término do tratamento, um ano e três anos após o final da radioterapia. A recolha dos dados, as avaliações e a intervenção serão realizadas por nutricionistas e investigadores diferenciados em investigação clínica e por radio-oncologistas clínicos. Os parâmetros deste ensaio clínico longitudinal de longa duração pretendem avaliar o potencial papel da ingestão diária do agrião de água durante os tratamentos ao nível da proteção das células saudáveis de lesões secundárias à radioterapia e, eventualmente, melhorar a resposta das células tumorais à radioterapia, tornando-a mais eficaz.

Adicionalmente, a avaliação do perfil metabolómico das doentes irá fornecer informação concreta acerca do seu status bioquímico e das alterações associadas ao cancro detetadas nos fenótipos metabólicos resultantes da suplementação com o agrião. O estudo pretende ainda esclarecer a capacidade das substâncias ativas do agrião de água em melhorar a capacidade regenerativa das células, em particular a regeneração do DNA celular, tendo como objetivo um fenótipo o mais saudável possível, recuperação mais rápida e eficaz pós-tratamentos, melhor qualidade de vida e menor toxicidade dos tratamentos. 

As amostras de sangue e urina recolhidas no Serviço de Radioterapia do Hospital Universitário de Santa Maria serão preparadas e congeladas no IMM pelos investigadores do estudo. Mais tarde, são enviadas para análise a realizar no Departamento de Food and Nutritional Sciences da Universidade de Reading, em Inglaterra. O projeto – financiado integralmente pela Vitacress Portugal – assume-se como mais um excelente exemplo de colaboração entre a academia e o mundo empresarial, que se espera que tenha ganhos para a sociedade.

Adquirida pelo Grupo RAR em 2008, a Vitacress Ltd. – com origem em 1950, no Reino Unido – é um dos líderes europeus na produção e comercialização de agrião, salada de folhas tenras, espinafre, ervas frescas aromáticas e tomate fresco, registando uma faturação anual na ordem dos 200 milhões de euros. A missão da empresa – que está presente em Portugal, Reino Unido e Espanha – é proporcionar aos consumidores uma opção de alimentação saudável, através da disponibilização de um conjunto diferenciado de produtos hortícolas, lavados e prontos a comer (IV Gama), de acordo com os níveis mais exigentes do setor. A Vitacress Portugal possui uma macro-exploração situada em Odemira e terrenos em Almancil e em Alcochete, numa área total de 280 hectares. Em território nacional, a empresa emprega perto de 300 pessoas e faturou, em 2012, 21 milhões de euros, sendo que 40% do total da produção se destina à exportação.

O Grupo RAR, um dos principais grupos económicos portugueses, integra um portfólio de negócios diversificado, que inclui as áreas de embalagem, alimentar, imobiliária, serviços e turismo. Com vendas de 1.032 milhões de euros e 6.000 colaboradores, está presente em Portugal, Alemanha, Brasil, Emiratos Árabes Unidos, Espanha, México, Polónia e Reino Unido.